O impacto das decisões orçamentárias sobre a vida cotidiana está no centro de um documento que organizações da sociedade civil pretendem levar às campanhas presidenciais de 2026. Apresentado em 20 de outubro, o texto reúne dez propostas para um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil e coloca em discussão temas que costumam aparecer de forma fragmentada durante as eleições, como custo de vida, qualidade do emprego, subsídios públicos e desigualdade.
A iniciativa reúne aproximadamente 70 organizações e cerca de 140 economistas. Segundo a Agência Brasil, o documento será encaminhado às campanhas dos dois candidatos à Presidência da República. A proposta é deslocar parte do debate eleitoral das promessas imediatas para decisões que afetam a distribuição de recursos e a capacidade do Estado de financiar políticas públicas.
Subsídios entram no centro da cobrança
Um dos principais pontos do programa é a revisão de subsídios e incentivos fiscais. A coalizão defende que esses mecanismos sejam acompanhados de metas verificáveis, geração de empregos e contrapartidas relacionadas à transição para uma economia de baixo carbono. A discussão interessa diretamente ao orçamento público porque benefícios concedidos a determinados setores reduzem a arrecadação disponível para outras áreas.
O documento não trata o equilíbrio das contas públicas e o bem-estar social como objetivos necessariamente incompatíveis. A abordagem, porém, questiona quem suporta a maior parte da carga tributária e quais incentivos permanecem sem resultados claros para a população. Com isso, a responsabilidade fiscal aparece associada à transparência sobre o destino dos recursos e à avaliação dos efeitos econômicos e sociais das renúncias.
Na prática, a cobrança apresentada pela sociedade civil é para que o próximo governo explique não apenas quanto pretende gastar, mas também quais prioridades serão preservadas e quem será beneficiado por cada decisão. A revisão de subsídios, nesse contexto, é apresentada como uma possível fonte de reorganização do orçamento, desde que vinculada a critérios públicos e resultados que possam ser acompanhados.
Moradia, transporte e trabalho entre as prioridades
Outra frente do documento envolve a redução do peso de moradia, energia e transporte no orçamento das famílias. São despesas essenciais que pressionam especialmente os grupos de menor renda e limitam o acesso a outros bens e serviços. A coalizão também defende a manutenção de ganhos reais do salário mínimo, associando renda do trabalho à redução das desigualdades.
As propostas incluem ainda a ampliação de políticas públicas de cuidado e a regulamentação do fim da escala 6×1 sem redução salarial. O tema relaciona organização do trabalho, tempo disponível e proteção social, mas sua implementação dependeria de decisões políticas e normativas do próximo ciclo de governo. O documento, portanto, não se limita a defender aumento de renda: também propõe discutir as condições em que o trabalho é realizado.
Na área rural e alimentar, a agenda menciona políticas para a agricultura familiar, segurança alimentar e combate à grilagem de terras. O conjunto aproxima questões que muitas vezes aparecem separadas no debate público: acesso à terra, produção de alimentos, preservação ambiental e proteção das populações mais vulneráveis.
Clima e desigualdade como teste para o próximo governo
O fortalecimento da adaptação climática também está entre as dez propostas. A medida ganha relevância porque os efeitos de eventos extremos atingem de maneira desigual territórios e famílias, exigindo planejamento público para reduzir riscos e ampliar a capacidade de resposta. O documento coloca a transição climática ao lado de emprego, renda e desenvolvimento, em vez de tratá-la apenas como uma agenda ambiental.
O contexto político e econômico ajuda a dimensionar o desafio. Em análise sobre o cenário nacional, a Folha de S.Paulo apontou responsabilidade fiscal, desigualdade, infraestrutura, reforma tributária, emprego, tecnologia e política industrial entre os temas que estarão no caminho do próximo presidente. A lista apresentada pela sociedade civil dialoga diretamente com parte dessas questões, mas acrescenta uma cobrança sobre os efeitos concretos das escolhas econômicas.
O desafio, agora, é transformar o documento em compromisso político verificável. A entrega às campanhas amplia a presença de organizações sociais na disputa, mas não garante que as propostas sejam incorporadas aos programas eleitorais ou executadas posteriormente. Para o eleitor, a agenda oferece um parâmetro de comparação: além de promessas de crescimento ou controle de gastos, será necessário observar como cada candidatura pretende financiar políticas públicas, revisar benefícios e reduzir o custo de viver no país.

